Porquê ?
Sofia sempre fora uma daquelas pessoas a quem não se presta grande atenção. Era baixa e de constituição normal, mas como todas as raparigas dignas desse título julgava ter alguns quilos a mais. Mas, se algo a tornava única era os seus cabelos castanhos encaracolados que lhe chegavam até ao meio das costas formando um conjunto de cachos e lembrando dessa forma o cabelo de uma princesa que só se encontra nos contos de fadas. Além disso, pode-se, ainda, adicionar a melancolia visível nos seus pequenos olhos castanhos e a sua capacidade de encenar a felicidade com um sorriso caraterizado de falso.
« Sai, ó croma ! », gritava o leader da turma e, como sempre, Sofia obedecia sem dizer uma palavra. Na turma, ela não passava duma marrona a quem toda a gente ia pedir os apontamentos e com quem toda a gente gozava. Ela odiava aquela turma, todos os dias pedia que o Daniel, a razão da sua infelicidade, desaparecesse da sua vida ou pelo menos daquela turma. Ele era mais velho que ela. Tinha uns olhos azuis onde uma pessoa tinha a impressão de se afogar e o sorriso mais lindo do mundo. Era o diabo dentro do corpo dum anjo, era preciso tomar atenção aos anjos, pois, o diabo também fora um deles. A cada oportunidade que o Daniel tinha para chatear Sofia era o que ele fazia, mas se ainda só fosse ele, a agonia desta miúda não teria sido tão grande, o pior é que os capangas dele apoiavam-no, quando não era a turma inteira! Sofia fingia não ouvir ou não escutar as observações que eles faziam a seu respeito, mas de facto ela memorizava cada palavra que enchia o seu coração de raiva e de incompreensão: O que é que ela fizera para merecer ser tratada dessa forma?
Ela não percebia, mas, de uma coisa estava certa, a sua vingança haveria de vir um dia…
Mais um dia no inferno
“ Who is the ugliest girl of this class, Daniel?” perguntou o professor de inglês. A resposta parecia ser evidente para ele. Com um sorriso maldoso, ele olhou para ela e respondeu com a maior naturalidade do mundo: “A Sofia!”
Ela olhou para o seu inimigo jurado e viu nos olhos dele a satisfação da sua ação. A sua raiva possuiu-a nesse instante e ela sem pensar, levantou-se e foi ter com o Daniel. Pediu-lhe para repetir o seu insulto e sem hesitar, Daniel repetiu. A mão de Sofia parecia ter ganhado vida própria, ele nunca tinha levado um estalo daquele género. A cara do Daniel tinha a marca da mão da Sofia e desta vez quem ria era a miúda. Na turma, reinava um silêncio de ouro, ninguém estava à espera que a marrona da turma fosse capaz de enfrentar o Daniel. Depois de ter concretizado este feito, Sofia arrumou as suas coisas, saiu da sala de aula e uma vez lá fora saboreou os aplausos dos seus camaradas.
Os risos dos seus camaradas arrancaram-na do seu sonho e sem coragem de combater a causa da sua infelicidade, ela saiu da turma com os olhos a chorar.
A hora de glória
A aula de educação física era a aula mais temida de Sofia. Ela gostava de fazer desporto, mas o problema era ser tão trapalhona. Tanto era capaz de surpreender toda a gente com as suas capacidades desportistas como de se ridiculizar ao cair por cima dos seus próprios pés. A aula de educação física tanto podia ser vantajosa como pelo contrário. Pois ela seria o tema de conversa para o resto do dia.
“Nina, vens para a minha equipa!”, exclamou o Daniel. Como sempre, Sofia ficara para última, nunca ninguém queria que a croma fizesse parte da sua equipa, ela era apenas um obstáculo para a equipa ganhar. Desta vez, Sofia ficara na equipa do Daniel, porque o Marcelo preferiu ficar com a Joana que só servia para aquecer o banco e mal. As equipas estavam prontas e o árbitro estava prestes a apitar. Sofia pedia a Deus que a ajudasse a fazer boa figura quando o apito deu início à partida. No início, Sofia não conseguira pôr o pé na bola, mesmo estando livre, ninguém da equipa dignava-se passar-lhe a bola nem que fosse pelo bem da equipa. Sofia sabia que não podia fazer asneira, ela não queria aturar o Daniel naquele dia. Na primeira oportunidade que teve agarrou a bola e começou a driblar. Ela passava pelos seus camaradas com uma facilidade enorme, parecia uma profissional da bola. Isolou-se à frente da baliza, só faltava fintar o guardarredes para poder marcar o golo e tornar-se heroína da sua equipa. Ela tinha o Daniel ao seu lado, mas optou por chutar. A bola parecia ir em câmara lenta em direção à baliza, dirigia-se para o ângulo superior desta, eram só mais dois milímetros para entrar, e Sofia já começara a festejar, mas Marcelo ainda conseguiu intercetar a bola. Daniel resmungava com a Sofia, ele podia ter marcado, bastava que ela tivesse passado a bola, mas fora egoísta. O jogo retomou e já estava prestes a acabar. A equipa do Marcelo tinha empatado à coisa de um minuto faltavam dez segundos para conseguir ganhar e para a Sofia dez segundos para limpar o seu nome. Sofia não sabia bem o que fazer, apenas esperava um milagre que lhe permitisse livrar-se dos problemas, por hoje. Sofia intercetou a bola e chutou à baliza sem acreditar na concretização. Já estava de costas viradas quando Daniel, de repente, gritou: “Golo, boa croma!” Por hoje, Sofia tivera a certeza, que subira na estima dos colegas, ao menos por algumas horas, e que lhe permitiriam viver no paraíso encurralada por diabos.
Não pode ser!
Sofia tinha sido chamada pelo professor. Ele queria falar com ela sobre a sua nota de educação física e durante esse tempo o resto da turma poderia sair. Depois de ter tratado do assunto, Sofia dirigiu-se para o balneário. Quando lá chegou já ninguém estava presente. Sofia aproveitou para ligar o seu ipod e pôr as suas músicas preferidas. A água quente escorria por cima do seu corpo quase queimando-a, lentamente. Ela adorava essa sensação, lembrava-a que ela estava viva e permitia-lhe sentir cada parte do seu corpo. Depois desta dose limitada de paz, Sofia sentiu-se mais forte do que nunca para enfrentar o seu triste destino que, naquele dia, até parecia estar indulgente. Como ela fora a última a sair, verificou se ninguém se tinha esquecido de nada. Primeiro procurou no vestiário das raparigas e depois lembrou-se de ir ao vestiário dos rapazes, uma vez que eles se esqueciam, frequentemente, das suas coisas pessoais. Bateu à porta e como ninguém respondeu, meteu, novamente, os auscultadores nos ouvidos e entrou. Dirigiu-se aos duches, costumava ser lá que os rapazes deixavam os seus produtos de higiene pessoal. De repente, ela vê uma toalha no chão e aí tirou os auscultadores para ver se ouvia alguma coisa. A água escorria e a sala enchia-se de vapor, mas além disso ela distinguiu a voz do Daniel - sem dúvida alguma que era ele - a declarar-se a alguém, mas a quem? De certeza absoluta que ele tirava proveito da Nina. A Nina era linda ao contrário da Sofia. Era alta, magra, loira, de olhos azuis, e tinha um corpo de manequim. Sofia decidiu ir ver nem que fosse para ter uma história para contar aos seus amigos. Discretamente, aproximou-se dos duches, e com muito cuidado esticou a cabeça para poder distinguir as pessoas que tomavam banho. Um deles, era sem dúvida alguma o Daniel. Sofia reconheceu a sua estrutura, o seu peito completamente definido e a sua cara angelical, mas a outra pessoa era mais baixa e estava atrás dele. Sofia ficou por uns instantes a apreciar este espetáculo erótico, pois os dois amantes beijavam-se com uma paixão ardente que demonstrava a atração existente. De repente, a outra pessoa ficou visível aos olhos de Sofia. Ela não conseguia nem podia acreditar. Não era a Nina, era o Marcelo. Os dois rapazes mais machos da turma, beijavam-se à frente dela tal como um casal de amantes que se esconde dos seus parceiros com medo da sua reação sem ser que neste caso eles temiam a reação dos outros. Toda a gente conhecia os preconceitos existentes para com os homossexuais. De repente, tudo ficou claro na cabeça de Sofia, eles necessitavam de pessoas como ela para poderem afirmar-se perante a sociedade escolar. Eles faziam tudo para que ninguém se apercebesse da diferença deles. Ela ainda tirou uma foto, nunca se sabe, podia ser útil um dia. Sofia saiu dos balneários dos rapazes a sorrir, desta vez era ela que tinha um sorriso triunfante nos lábios.
Let’s play!
Uma vez em casa, Sofia começou a pensar como tirar o melhor proveito desta situação. Desta vez, ela é que tinha todas as cartas nas mãos. Ela agarrou numa folha de papel e numa caneta para anotar todas as ideias que lhe passavam pela cabeça para torturar lentamente o Daniel e o Marcelo e quem sabe deixá-los depressivos. A primeira ideia que ela teve foi de criar uma conta anónima no facebook da escola - para não poderem chegar até ela - e meter lá a foto dos dois rapazes apanhados em flagrante. Uma vez a imagem publicada na net, todo o pessoal conheceria o pequeno segredo que existia entre eles e torná-los-ia as principais vítimas dos manda-chuvas da escola. Se fossem outras pessoas, ela não o faria, ela não tinha nada contra gays, ela até tinha um na família de quem gostava muito, mas eles mereciam o desprezo que esta revelação implicaria. Além disso, o seu melhor amigo o Joel, que andava na mesma turma que ela, era gay e ela adorava-o, era um doce de pessoa. Ela era incapaz de lhe fazer mal, era a única pessoa da turma que a compreendia, pois ele próprio foi e continuava a ser alvo de bullying na escola. Depois lembrou-se de mandar fazer cartazes enormes das fotos que tirou e afixá-los nos corredores da escola para que toda a gente pudesse ver. Porém não se sentia satisfeita com essas ideias, pois não eram suficientemente maldosas, porque se calhar eles até seriam aceites depois da polémica passar. Ela tinha que se assegurar que o que iria fazer trar-lhes-ia o sofrimento desejado. Eles haveriam de sofrer tal como a fizeram sofrer, mas numa escala bem maior, o triplo, o quadruplo, o máximo que fosse possível. Ainda se lembrou de mandar a foto por sms, mas isso era tudo muito perigoso. Se alguém pesquisasse, o nome de Sofia De Almeida iria aparecer e ela não queria ser acusada de homofobia, porque para os estudos que ela queria seguir, tinha de ter um cadastro virgem e não permitia que qualquer imprevisto viesse dar cabo dos seus sonhos. Teria de ser mais subtil, mas como? Uma boa noite de sono se calhar ajudaria a invocar a sua maldade camuflada pela sua bondade e inocência.
What the hell?
Como todos os dias de manhã Marcelo fora buscar Daniel de carro. Marcelo tinha um Ford RS branco e quando se aproximava a casa do seu amado, punha a música a altos gritos para chamar a atenção das miúdas da rua. Eles já tinham tudo calculado para esconder a sua relação. Cada vez que passavam ao pé de raparigas baixavam a janela para meter conversa e, além disso, alimentavam a fama de Casanovas. Quem é que iria duvidar dos rapazes mais desejados da escola? Quando chegavam ao estacionamento da escola, ficavam lá una bons 20 minutos a partilhar os raros momentos de amor que tinham. Depois os seus caminhos separavam-se. Tornavam-se em dois amigos que temiam a reação da sociedade se viessem a descobrir a verdadeira natureza que os unia.
Daniel tinha sempre o hábito de ir ao cacifo antes das aulas. Ele abriu-o e, de repente, ficou vermelho como se tivesse encontrado algo que o incomodasse e que teria de esconder a todo o preço. Daniel só pensava em encontrar o Marcelo e contar-lhe este incidente que não podia repetir-se.
Daniel ficou durante o dia inteiro a pensar no envelope encontrado no cacifo, até tinha sido um gesto bonito da parte do Marcelo, mas um bocado arriscado. Se alguém tivesse reparado que Daniel tinha uma foto do Marcelo, com a inscrição espero que gostes no verso, poderia começar a imaginar coisas e mesmo descobrir o seu segredo. Ainda por cima aquela foto não era uma foto qualquer, era a foto mais excitante que Marcelo dispunha. Marcelo estava em tronco nu com os dois braços atrás da cabeça. O seu peito era, simplesmente, perfeito, ele não tinha uma grama de gordura a mais, o corpo podia ser comparado ao de um deus grego. Além do risco corrido, esta demonstração de amor excitava Daniel que ansiava que a escola acabasse para poder voltar a encontrar o seu amor.
Preparação para o reinado
O liceu Luís XVI organizava todos os anos, tal como os americanos, o baile do fim de ano onde os alunos escolhiam o seu par preferido do liceu. Esse par seria a reflexão perfeita da união que representa o amor. Além disso, o casalinho eleito iria beneficiar de uma miríade de vantagens e de prémios durante o ano letivo. No ano anterior, os felizardos haviam sido o Daniel e a Marisa. Eles ficaram em primeiro lugar à frente do João e da Francisca. Estes últimos não pertenciam ao grupo eleito dos populares, mas eram pessoas acessíveis a todos e que não tinham a mania, não se achavam superiores aos outros. Muitos alunos chegaram mesmo a dizer que os votos tinham sido trocados para perpetuar o reino dos populares dentro da escola.
Este ano, o João tinha esperança de ganhar o título, na altura ele preenchia todos os critérios para ganhar. Depois da sua derrota frente ao Daniel no ano anterior, ele imiscui-se no meio da equipa do futebol do liceu. Desde aí, tornara-se popular, mas ao contrário dos outros o sucesso não lhe subira à cabeça, ele não tinha mudado. Ele ficara sempre o mesmo rapaz bondoso, sempre pronto a ajudar qualquer pessoa, e simples o que lhe dava um charme suplementar. O João não correspondia ao estereótipo do rapaz popular do liceu Luís XVI, ele tentava manter-se único e original, o que o tornava perfeito à sua própria maneira. Ao contrário dos outros rapazes da equipa de futebol, ele não seduzia sempre raparigas diferentes, mas sim sempre a mesma. Ele ainda tinha outras qualidades, sem ser as já mencionadas, era atencioso com toda gente, mesmo com os cromos por exemplo com a Sofia. A sua relação com a Francisca tinha sofrido com o novo ranking de popularidade que ele tinha atingido. Pouco mais de um mês antes da campanha começar a Francisca acabara o namoro, não suportava o olhar das outras pessoas e a pressão que exerciam sobre ela. Esperavam que ela fosse arrogante e superficial, mas ela não quis continuar apesar do forte amor que sentia pelo João…
COMO?
“Como é que não foste tu que puseste esta foto no meu cacifo?” questionava Daniel aflito ao seu amado. Tal como previsto os dois rapazes encontraram-se depois das aulas e Daniel decidiu recompensar Marcelo pelo seu lindo gesto de amor. Quando ele teve oportunidade, agarrou o seu namorado e deu-lhe um beijo ardente de paixão e Marcelo admirou-se desta demonstração espontânea de Daniel. De facto, Daniel não gostava de demonstrar os seus sentimentos e muito menos fora das suas respetivas casas. Marcelo, então, decidira perguntar o porquê daquele beijo e Daniel contou-lhe o sucedido. Marcelo atrapalhou-se, porque, de facto, não fora ele que colocara lá a foto. Os dois rapazes ficaram aflitos. Será que alguém descobrira o segredo deles?
O Amor sorriu-lhe
Ultimamente, Sofia andava feliz da vida. Os dois tiranos estavam calmos que nem dois cordeirinhos e, além disso, ela e o João estavam mais próximos do que nunca. Sofia sempre tivera um fraquinho pelo João. Ele era diferente, parecia ser o tal. Todos os dias, desde o fim do namoro com a Francisca, eles iam beber um copo ao café da esquina da avenida onde o liceu ficava situado. Nunca, mas mesmo nunca, nada de fora do comum acontecera, apesar de Sofia emitir sinais, mas como é hábito, os rapazes parecem não saber descodificar essas mensagens de amor! São muito distraídos!
Naquela tarde, Sofia avisara o João que não poderia ir beber um copo com ele depois das aulas. Ela explicara-lhe que tinha coisas mais importantes para fazer, todavia ele não quis ouvir e convenceu-a. João estava esquisito, muito estranho, e Sofia pensou que ele tivesse tido um dia desagradável, mas não o questionou. Quando chegaram ao café, a mesa do costume já estava posta para duas pessoas e, estranhamente, com os bolos que eles costumavam pedir. Sofia dirigiu-se, naturalmente, para outra mesa, mas João agarrou-a pelo braço, sorriu e conduziu-a à mesa. Tal como um perfeito gentleman arredou a cadeira e esperou que Sofia, estupefacta, se sentasse. Depois de se ter sentado João começou a declamar-lhe um poema de amor que acabou com um pedido de namoro. Sofia não acreditava naquele momento que estava a viver, sentia-se nas nuvens, ela nunca pensou que, afinal, os sentimentos eram recíprocos. Levantou-se, calmamente, e abraçou-o. Nesse momento, os seus olhares cruzaram-se e Sofia, emocionada, sentia que este momento fora o que de melhor lhe acontecera desde há muito tempo.
A imagem define-se
Depois de perceberem que o seu segredo estava em perigo ameaçado, os rapazes decidiram não se mostrarem juntos e apenas encontrarem-se à noite em casa, ou nas discotecas gays, onde ninguém os conhecia. Ninguém que eles conhecessem frequentava aquele tipo de discotecas, por isso a segurança era plena naquele local.
Durante a aula de francês, Daniel observou a estranha cara de Marcelo. A sua cara refletia a preocupação que lhe passava na alma, e Daniel percebeu que algo de grave tinha sucedido para que Marcelo estivesse naquele estado. No intervalo seguinte, Daniel foi ter com Marcelo para que ele lhe contasse o motivo da sua tristeza. Marcelo tirou uma folha da mochila e mostrou-a ao seu amado.
A carta não permitira tirar nenhuma conclusão sobre a identidade do opressor. Era composta por várias letras recortadas de jornais, como se costuma ver nos filmes, e a folha era básica, era apenas uma folha de computador. Aquele bilhete apenas aumentara a preocupação dos rapazes, mas graças a ela, eles estavam certos duma coisa: era alguém que por enquanto estava na sombra deles e queria viver as vantagens da popularidade, em outros termos, um candidato respetivamente um casal da competição.
Depois de realizarem a situação crítica em que se encontravam, os dois rapazes dirigiram-se à lista exposta na entrada do liceu no quadro de afixação, e descobriam simultaneamente os nomes dos suspeitos: Marisa, Viviana, "namorada de Marcelo", Francisca e José, Diana e André, João e Sofia. Quando leram os nomes do último casal, ficaram de boca aberta: Desde quando é que a croma por excelência namora com o médio avançado do liceu? Apesar daquela surpresa, os opressores pareciam ter sido descobertos: Sofia e João...
As razoes da Sofia eram evidentes, ela queria vingar-se por todo o mal que eles lhe tinham feito, por todas as vezes que eles a torturaram para tornar os seus quotidianos mais agradáveis graças a infelicidade dela. Queria que eles sofressem tudo aquilo que ela sofreu nos últimos anos letivos. Eles não compreendiam o porquê do João. Afinal ele pertencia ä segunda família dos rapazes: a equipa de futebol. Além desse facto, desde o ano passado a popularidade dele tinha atingido o patamar maximo. O que é que ele tinha a ganhar com a revelação do segredo deles? Ele já possuía tudo o que o liceu lhe podia dar: popularidade. Uma realidade consciente era que eles não conheciam a verdadeira personalidade do João. Ele mudou-se para aquela escola no ano letivo anterior. Na altura, ele não praticava nenhum desporto, apenas namorava a Francisca e pouco mais. Só depois da sua derrota no concurso é que entrou na equipa e até era um rapaz porreiro. Mas, entao, porquê?
Eles só chegaram a uma conclusão, o João e a Sofia juntaram-se para concretizar os seus projetos distintos: Tortura-los e ganhar o concurso para atingirem o patamar de todos poderosos no liceu...
Eu, o quê?
Já era tarde, Sofia estava mergulhada na leitura do livro de Freedom Writers. Ela adorou o filme que tinha visto na semana anterior e logo que soube que existia o livro, decidiu compra-lo. O livro não tinha nada a ver com o filme. Era um conjunto de histórias verídicas passadas por adolescentes da idade dela. Aqueles jovens é que confrontavam a dura realidade todos os dias, o verdadeiro sofrimento, a precariedade. Os problemas de Sofia pareciam absurdos ao lado dos problemas deles; algumas raparigas contam como foram violadas pelos seus padrastos, seus familiares. Alguns rapazes descrevem minuciosamente as rivalidades entre gangs e como os seus amigos foram assassinados. Graças a essa leitura, os problemas de Sofia desapareceram, lentamente, quando ela se deparou com esta realidade de que há pessoas em situações bem piores que a sua. De repente, o seu telemóvel começou a vibrar, e ela sentiu-se como se tivesse sido arrancada com alguma violencia da sua leitura. Ela ficou espantada, mas quem lhe telefonaria aquela hora. Ela que raramente é contactada por alguem, por isso, teria de ser algo importante. Abriu o telemóvel e o nome de Joana tornou-se legível no ecrã. Atendeu, mas desconfiada, porque quando a Joana telefona é porque algo aconteceu.
“ Então tu vais participar na competição e não me avisaste?” perguntou a sua amiga com um tom cheio de implícitos.
“ Eu, o quê?” respondeu incrédula Sofia.
Então, perplexa perante aquela resposta, Joana explicou-lhe a sua ultima descoberta. Ela contou a Joana que enquanto navegava na internet, fora até à página do liceu para verificar uns factos e viu o nome de Sofia De Almeida ao lado de João. Ela não podia esperar por uma resposta e queria saber todos os detalhes: qual era a cor do seu vestido, o corte, os sapatos, como é que ela ia levar o cabelo, se o João ia de fato? Esta pergunta era mais uma afirmação, do que qualquer outra coisa. Sofia ficara embasbacada, acabou de descobrir que ia entrar na liga dos titãs e que definitivamente não estava preparada para tal. Ela tentou despachar rapidamente a Joana, precisava de falar urgentemente com o namorado.
O telemóvel de João não parava de tocar, e ele sonhava com a sua vitória.
Confiança acima de tudo!
“ Ô bé, eu ia contar-te hoje!” garantia João quando descobriu a cara furiosa da sua namorada. Ele estava consciente que não tinha feito nada de mal, apenas tinha lhe omitido a participação deles na competição, por isso aquela cara só podia ser devido aquilo.
“ Senão irias dizer-me quando? No dia da competição? Oh mor, eu amo-te, e só para que saibas nos estamos na lista dos candidatos, contavas faze-lo assim?” contra atacou Sofia. Ela odiava que lhe escondessem coisas, era um sinal de falta de confiança nas pessoas o que pode levar diretamente à traição. Se o objetivo dele era descer na estima da namorada, tinha conseguido. Pois, a sua frágil alma, não aguentaria qualquer presença de segredos numa relação fosse ela qual fosse: familiar, amigável, ou amorosa, era-lhe indiferente a natureza da relação. Ela contava tudo ao seu amado, não tinha nenhum segredo, ele tinha noção de todos os detalhes da sua vida, sabia de todos os seus segredos. Ela sabia que este erro não merecia penalização, mas queria que ele tomasse consciência da importância da confiança na relação deles. Ela tinha ido tão longe na confianca que depositara no namorado que até lhe revelara o segredo dos amantes …
Fica-me bem?
O dia do baile aproximava-se a grandes passos e Sofia ainda não tinha o que vestir. Por isso ela e a Joana foram ao Dolce Vita da zona para ver se encontravam um vestido que fosse o espelhoa de Sofia. A Joana era uma fanática de moda, andava a par dos últimos trends e não era capaz de sair de casa sem estar minimamente arranjada, ao contrário de Sofia. Não é que ela fosse desleixada, ela até cuidava do seu look, mas não tinha tanta segurança em vestir-se tal como desejava.
As raparigas já tinham entrado em imensas lojas, mas nenhum vestido tinha chamado à atenção de Sofia. Joana obrigou-a a experimentar vários vestidos, mas não conseguiu convencê-la a comprar nenhum. A vontade e a esperança de encontrar um vestido estava a diminuir com a entrada numa nova loja, mas elas estavam dispostas a continuar.
Já tinham percorrido quase todas as lojas, provavelmente só faltariam duas ou três. Entraram naquela loja sem grande convicção, as montras eram muito pobres e não parecia ter aquilo que Sofia procurava, mas nunca se sabe.
A loja era bastante grande, estava divida em três áreas: mães grávidas, roupa comum e roupa casual. As raparigas dirigiram-se logo à secção que lhes interessava. Elas ficaram estupefactas, aquela loja não aparentava ter uma variedade tão grande de vestidos de cerimónia: era simplesmente um mundo. Havia vestidos para todos os gostos, certamente que seris desta vez que Sofia encontraria a sua felicidade. Quando Sofia deu por ela, a sua amiga já tinha desaparecido no meio do universo e livrou-se a exploração daquela aventura de cetim.
Por sua vez, Sofia procurou e até encontrou alguns vestidos que lhe agradavam. Apanhou alguns e foi experimentá-los, mas nenhum assentava que nem uma luva, nenhum fazia dela a princesa que tanto aspirava tornar-se.
De repente, Joana abriu o cortinado do vestiário, e ainda bem que a loja estava deserta e ninguém estava lá para poder apreciar aquele espetáculo. Sofia tentava esconder o seu corpo com a roupa que tinha na mão. Eléa estava com um sorriso que ia de uma orelha à outra: “ Encontrei-o, finalmente!”
Joana deixou-o aparecer. Era simplesmente lindo, em cetim branco, junto ao corpo, sem alças, e tinha um laço grosso preto por baixo do peito.
“ Gostas? Fica-me bem?” perguntava Sofia. Apesar de adorar aquela peça de roupa, Sofia tinha medo que lhe ficasse mal e que parecesse ridícula quando o vestisse.
“ Tu vais comprá-lo e mais nada! E também estes sapatos pretos, ficam a matar!” exclamou Joana.
Quem é que manda aqui?
“ Oh Daniel, é melhor cedermos! A nossa história já dura há tanto tempo, não vamos deitar tudo a perder por causa do João! Se ele quiser ter todo o protagonismo na escola, deixá-lo, eu prefiro continuar a ter-te!” Suplicava Marcelo. Desde aquela descoberta que ele não sossega, e considerou todas as possibilidades e a conclusão foi sempre a mesma: ceder! Gostaria de assumir o seu amor, publicamente, mas estava perfeitamente consciente das consequências inerentes. No passado, antes de ter a certeza da sua orientação sexual, tinha gozado com o seu melhor amigo da altura porque tinha tido a audácia de o assumir. Na época, ainda era novo, apenas um pré-adolescente movido pelas hormonas. Do rapaz nunca mais se ouviu falar, apenas desapareceu do mapa, dizia-se lá no liceu que tinha entrado em depressão. Mais tarde, veio-se a confirmar que ele tinha feito uma tentativa de suicídio que por pouco tinha sido bem sucedido. Por isso mesmo, ele não queria viver um tal terror, preferia continuar a ser um ator, um simples figurante, na sua própria vida.
“ Nós não lhes vamos dar esse prazer, afinal quem é que vai acreditar naquele borra-botas? Ele não tem prova nenhuma, ninguém vai acreditar na palavra dele, ou mesmo daquela palhaça da Sofia. Eles estão a fazer bluff. Afinal quem é que é o rei do liceu? Quem é que manda aqui? Eu e mais ninguém! Por isso, vamos ao baile e vamos conseguir o título que nos pertence!”, dizia o Daniel cheio de confiança e certezas…
é minha!
Sofia tinha passado toda a tarde a preparar-se para aquela noite. Ela queria estar à altura das expetativas do João. Ela sabia o quão importante aquele título era para ele e além disso queria passar um momento inesquecível. Aquele tipo de momentos que iria confiar às suas netas, pois os rapazes não iriam achar muita graça. todos têm direito a momentos que os deixam sem ar para respirar, momentos raros e perfeitos que os marcam para toda a vida.
João tinha acabado de chegar. Os pais de Sofia acolheram-no com muita simpatia apesar do olhar ameaçador, mas se calhar era só impressão. Sofia parecia necessitar uma eternidade para chegar à entrada.
Ele não acreditou no que os seus olhos viam. Sofia vinha da cozinha, pois para ser diferente de tudo e de todas, a menina não podia descer as escadas como acontece em todos os filmes de Hollywood. Ela vinha da cozinha, e esse detalhe não lhe tirava a sua formosura. Estava apenas perfeita, o vestido assentava-lhe lindamente, que nem uma luva, o cabelo estava apanhado, mas um ou outro cacho caía e dava-lhe um charme suplementar à cara da sua namorada. “ E ela é só minha!” pensou João com muito orgulho.
O fato de João era cinzento, de um cinzento brilhante que chamava à atenção. Além disso, tinha uma camisa branca com botões pretos, bem definidos e por cima um colete cinzento com riscas pretas finas, e uma gravata preta. O toque que tornou o seu outfit perfeito foi uma rosa branca no bolso do fato lembrando o vestido da sua namorada.
Os dois jovens saíram da casa da rapariga debaixo do olhar preocupado dos pais. Ela estava a tornar-se adulta, o dia da saída definitiva de casa estava a aproximar-se a grandes passos.
Vamos dançar?
O casalinho chegou à sala de festas do liceu, já havia uma grande fila de espera para entrar e tirar uma fotografia para mais tarde recordar. Várias pessoas ficaram a olhar para Sofia com uma cara incrédula, nunca ninguém a tinha visto arranjada daquela forma, parecia transformada, alguns até sentiram arrependimento de a terem tratado mal e de a acharem feia. Até a Nina veio cumprimentar o par e elogiou a beleza dos dois. Sofia ficou admirada das reações que a sua mudança visual suscitara, mas por uma vez na vida nada parecia importar, ela queria desfrutar daquela noite ao lado do seu namorado perfeito. Os maus momentos desapareceram dum instante para outro, ela achou que tudo o que viveu foi apenas uma prova, uma prova da vida, que lhe permitiu sair mais forte e madura. Achou que não necessitava de se vingar dos seus opressores, mas já estava tudo em marcha, já não havia volta a dar. Afinal também não era preciso exagerar e esquecer tudo de uma vez.
“ Morzinho, vamos dançar?” perguntou João com um sorriso irresistível, depois de terem tirado a fotografia. Sem hesitação Sofia agarrou a mão do seu amado e puxou-o para a pista de dança onde os dois se agarraram mutuamente e se moviam ao ritmo dum slow que já tinha testemunhado inúmeras histórias de amor.
Receio no ar
A sala era bastante grande, devia ter espaço para umas centenas de pessoas, e estava muito bem decorada. Como previsto tinha um ecrã titânico com uma foto de cada casal participante na competição. As urnas encontravam-se à entrada, assim ao entrar aproveitava-se para votar. Além disso havia um bar que a comissão dos alunos tinha organizado. Os serventes eram estudantes universitários que tinham frequentado o liceu há alguns anos, por isso a presença de álcool era provável, mas ninguém queria preocupar-se com esse assunto. De qualquer maneira todos os alunos já tinham idade suficiente para saber o que estavam a fazer e mesmo para beber se quisessem. Finalmente, o ambiente estava muito bom. Para qualquer lado que uma pessoa olhasse, veria jovens a divertirem-se e a aproveitar o momento presente. No meio dessa juventude feliz, dois jovens pareciam ansiosos e incapazes de imitar os colegas, pareciam recear que em qualquer instante algo de crucial iria acontecer, mas os outros estavam demasiado preocupados a manter o ambiente para se aperceberem que alguma tensão estava no ar e que arriscava dar cabo da noite.
A hora chegou
“ Peço a todos os concorrentes que subam ao palco!” pedia o diretor depois do seu longo discurso sobre a tradição do baile do liceu e uma data de tretas às quais ninguém prestava atenção nem os próprios professores.
Todos os interpelados subiram ao palco. Alguns não conseguiam esconder o seu nervosismo, outros pareciam certos da sua vitória e outros ainda não deixavam ninguém penetrar na sua alma, nos seus pensamentos íntimos, pareciam imperturbáveis.
“Antes de divulgar os nomes dos vencedores, quero que aplaudam os vossos colegas, porque esta noite todos são vencedore.” pedia o diretor para tentar aumentar o suspense. O pessoal lá lhe obedecia para ver se ele se despachava, porque de facto todos os anos era a mesma história: ele demorava uma eternidade a divulgar os resultados. O diretor agarrou no envelope, abriu-o, tirou a folha e quando ia anunciar os felizes vencedores: uma falha de electricidade, que em vários segundos parecia ter sido resolvida. Mas a electricidade não voltou sozinha, no ecrã aprecia uma foto de dois rapazes a beijarem-se. Durante alguns instantes, não houve nenhuma reacção. Toda a gente parecia estar de boca-aberta, até que um rapaz exclamou: “O Daniel e o Marcelo são larilas!”
Mas quem?
Enquanto uma confusão imensa se sentia na sala, Sofia parecia absorvida pela imagem familiar dos dois rapazes. Ela estava estupefacta. Como é que aquela imagem tinha idoali? Não tinha sido ela! É certo que ela queria vingar-se, mas após aquela noite de reflexão ela decidira não ir tão longe e só usar o seu trunfo se eles voltassem a chatear. Isso não foi preciso. De facto eles andavam que nem dois cordeirinhos. Então quem é que foi? A única pessoa que também estava ao corrente era o seu namorado, a pessoa em quem ela depositava toda a sua confiança e a quem ela tinha pedido que não interferisse nos problemas dela com aqueles monstros. Apesar de ter um sorriso desenhado na cara, ela sentia-se dececionada; ele quebrara a promessa. Era já a segunda vez, se calhar desta fora demais. Nesse instante ela decidiu analisar o aspeto fisionómico de João para ver se adivinhava os seus pensamentos. A sua estatura não parecia aquela de quem estava satisfeito pela sua ação, mas sim de uma pessoa surpresa, incrédula perante aquilo que via. De repente, os olhares dos namorados cruzaram-se e Sofia percebeu que acusava o seu namorado sem razão: ele estava inocente. Então quem fora? Podia ter sido qualquer pessoa, aqueles seres contavam tantos inimigos. Apesar de achar que eles mereciam algo do género, o sentimento de pena começou a invadir o seu coração. Ela sabia como era ser gozada a todo o instante, de se sentir só no meio de uma multidão, o sentimento de incompreensão. Tudo isso fez parte do seu quotidiano e sinceramente ela não o desejava nem ao seu pior inimigo. Ela tinha que fazer algo. Que tal um discurso pró-homossexuais? Será que alguém iria escutar o que ela tinha para dizer? Provavelmente, não! Os alunos que ainda há instantes pareciam civilizados pareciam terem-se transformado em animais selvagens, prontos a rasgar em bocados quem não encaixava com a norma imposta pela sociedade. Os dois “eternos” condenados já tinham desaparecido, mas continuavam a ser alvo de gozo e insultos. Ninguém os vira sair da sala, mas toda a gente viu a cara deles quando se reconheceram: uma mistura de surpresa, vergonha e tristeza com a sensação de que a sua vida iria tomar uma volta de 180°. No meio destes pensamentos, João agarrou a sua namorada e puxou-a para tentar sair daquela confusão. Repentinamente, um sorriso triunfante desenhou-se nos lábios de Sofia, ela concretizara todas as provas a que fora submetida e achou que a tornaram mais forte e fizeram dela o que é hoje. Num momento de hesitação ainda olhou para trás para ir procurar os rapazes e reconfortá-los. Apesar do seu bom coração, ela não era tola. Agarrou o braço do seu cavaleiro e dirigiu-se à porta com um passo seguro. Todos os maus momentos do liceu não passariam de uma lembrança longínqua.
À saída, um rapaz que estava apoiado na porta chamou a sua atenção. Ela nunca o tinha visto antes, ele não era do liceu, mas isso não importava. Ela apenas continuara em frente para começar a sua nova vida. O rapaz ainda pronunciou uma frase incompreensível no meio de tanto barulho e confusão e ficou perdida na imensidão: “ Espero que tenhas gostado da minha vingança, meu querido ex-melhor amigo: Marcelo!”
Ontem nas Olimpíadas começas-te a ler a história e confesso que fiquei curiosa para poder ler a continuação. E cá estou eu, hoje, a ler esta fantástica história. E sabes uma coisa? Gostei muito! Tens muito jeito para a escrita, parabéns! :)
RépondreSupprimerobrigada :)
RépondreSupprimerNão tens de quê :)
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